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Este artigo está no informativo
da
Associação Paulista de Homeopatia (Set/Out-97)
A
Pesquisa Homeopática
O
discurso homeopático vem mostrando imprecisão
e ambigüidade quando procura referências e
auto-definições. Alguns concebem a homeopatia
como ciência, outros como um saber. Para pensar
o estatuto da homeopatia no mundo contemporâneo,
nossa reportagem convidou três importantes pesquisadores
presentes no VI SINAPIH - Madel Luz, Bernard Poitevin
e Jorge Biolchini - a opinarem sobre o tema.
Madel Luz
Acho que em geral as medicinas, independentemente de ser
homeopatia ou não, são saberes. Nesses saberes
elas podem ter una base mais científica, isto é,
mais ratificada pelas ciências atuais ou não.
E desse ponto de vista a homeopatia também é
um saber médico. Falo evidentemente, na discussão
que Michel Foucault fez sobre as disciplinas e sobre as
crenças.
Em qualquer posição que você esteja
não se considera que a medicina seja uma ciência;
ela e uma prática que se embasa ou não em
disciplina científicas. Isto dito, eu acho que
o saber homeopático se baseia em princípios
não coadunados com o modelo atual de ciência.
Então resta a ela um esforço conceitual,
metodológico, para desenvolver suas bases de saber,
de modelo de conhecimento para que possa realmente se
coadunar com o método científico, o discurso
científico.
Digo isso porque essa parece uma ambição
ou uma proposta dos homeopatas não apenas nos últimos
anos, mas desde o século 19, ao menos no Brasil.
E para eles é fundamental a legitimação
científica. Eu, pessoalmente, não acho que
todos os saberes tenham de ser científicos, ou
tenham que ter legitimidade científica. Mas tenho
a impressão que os homeopatas procuram a legitimidade
por razões inclusive políticas. Acho que
resta muita coisa a elaborar no plano conceitual, metodológico
e, desde que você fala em metodológico e
conceitual, você fala em método científico.
Acho que é um caminho que nos últimos dez
anos vem crescendo e predominando sobre o discurso mais
ideológico
A ambigüidade advém desta idéia de
que e necessário ser um saber científico
e que portanto a homeopatia teria de provar que é
um saber cientifico. Eu acho que esta é uma “demarche”
ideológica, no máximo estratégica.
E isso não é um ponto de vista subjetivo;
isso pode ser notado pelo estudo de um século e
meio da história da homeopatia no Brasil. Houve
desde o início essa tendência a querer enquadrar-se
dentro do molde da ciência. Acho difícil
a homeopatia formar as suas bases, o seu paradigma, em
função dessa camisa-de-força. Ainda
mais que atualmente a ciência está passando
por uma grande transformação e está
incluindo nas suas propostas o estudo de dimensões
que até agora ela não tinha incluído,
porque o objetivismo estreito que caracterizava o modelo
científico moderno não permitia que fossem
incluídas essas dimensões. Com as novas
discussões na ciência houve uma integração
de dimensões nas pesquisas, inclusive nas pesquisas
biomédicas que estão reformulando esta idéia
objetivista, quantitativa. Seria uma pena que a homeopatia
entrasse por esse caminho, agora que a ciência está
saindo; é um anacronismo. Acho preferível
que ela tente traduzir da maneira mais rigorosa e mais
metodologicamente viável seus próprios princípios;.
Ela % ainda não fez isso, mas pode fazê-lo:
no que concerne à sua diagnose, à sua fisiologia,
àquela dinâmica vital que também ainda
está por se assentar como base científica
do modelo homeopático.
Betnard Poitevin
Eu não sei dar uma definição precisa
da homeopatia. Penso que ela e uma realidade com parâmetros
médico, farmacêutico social, mas nós
não conhecemos suas bases para dar uma definição
cientificamente, precisa. Mas isso não é
muito importante. Nós não precisamos dar
uma definição precisa. Acho que o mais importante
é identificar bem os problemas e os temas sobre
os quais estamos falando. Qual a parte da homeopatia que
é científica, qual a parte que é
médica, qual a parte que é social, qual
a parte que e farmacêutica e tentar no interior
desses diferentes campos aplicar, com o mesmo rigor, os
critérios de pensamento e de método que
são próprios a cada um deles.
Por outro lado, há uma realidade escondida atrás
da homeopatia, que não é facilmente definível.
Algo um pouco como o filósofo David Bohm define
quando diz que há um mundo externo e um mundo interno
o qual é mais próximo da realidade. Há
uma realidade escondida que nos escapa um pouco, que é
um tanto misteriosa, que nós sentimos mas temos
dificuldade em exprimir. Para mim, uma maneira de exprimir
isso que nós chamamos de homeopatia (apesar das
dificuldades, que não são poucas) é
situando-a num campo intermediário entre a farmacologia,
a medicina clássica e a medicina energética.
A homeopatia é qualquer coisa que nos escapa: ela
é líquida, aquática, fluída,
aérea. Eu sou ciente disso. No meu trabalho busco
fechá-la, mas sei que ela nos escapa. E é
esta espécie de movimentação que
faz com que a homeopatia seja um estágio intermediário
entre dois sistemas de pensamento que se opõem
- sendo isso para mim o que constitui o grande interesse
daquilo que chamamos homeopatia na atualidade, mas que
eu sou incapaz de definir.
Penso que até podemos dar uma definição
um pouco mais precisa quando olhamos a prática
médica, para o medicamento homeopático e
para a inserção social da homeopatia. Mas
no conjunto, em seu aspecto mais geral, ela permanece
sendo um pouco misteriosa. Se pensarmos nos quatro elementos
(água, ar, terra e fogo) eu diria que a homeopatia
não é muito terrena. Isso parece um pouco
louco como definição, mas eu não
tenho outra mais precisa.
Jorge Biolchini
Acho que a homeopatia é um saber; ela ainda não
pode ser considerada uma ciência no sentido pleno
da palavra. Considero-a um campo do conhecimento que está
evoluindo para uma direção com status de
ciência. Não é atoa que surgem essas
duas posições: pessoas que apontam problemas
que inviabilizam a homeopatia de adquirir um status científico,
e pessoas que exaltam o esforço científico
dentro da homeopatia. É só olharmos para
outros campos do conhecimento nos quais já esta
estabelecido um status científico, e notamos que
não há essa necessidade de exaltar o espirito
científico pois isso é senso comum. A necessidade
de exaltação é um sintoma de que
o status científico é uma novidade na homeopatia.
Um ponto frágil nesse caminho para se tomar uma
ciência é a pobreza operacional de alguns
conceitos – o excesso de discursividade e a pouca
operacionalidade. Não pela terminologia. Às
vezes, quando se critica a terminologia, algumas pessoas
rebatem no sentido de que o termo em si não é
importante. Mas, por exemplo, o conceito de força
vital não é operacional. Se alguma escola
ou algum homeopata vier a operacionalizar este conceito
poderemos manter o nome força vital - apesar disso
trazer uma série de conotações ruins
do ponto de vista interpretativo. O problema não
é a palavra, não é o significante
mas o significado. Trata-se de entender se é possível
manter o conceito ligado ao termo e esse termo representando
a operacionalização do conceito.
Outro ponto (e acho que esses pontos estão relacionados
entre si) é o da reprodutibilidade. Esta é
uma das grandes fragilidades da homeopatia, reconhecida
universalmente até pelos que professam que a homeopatia
já é científica. Faltam comprovações
de reprodutibilidade. Seria interessante que aqueles que
afirmam ser a homeopatia científica, apresentem
dados concretos de que conseguiram reprodutibilidade.
É impossível considerar a homeopatia científica
sem a reprodutibilidade, e aí entram todas as questões
interligadas sobre o consenso: desde a terminologia, passando
pelos conceitos, pelos métodos, pelas técnicas
e o consenso em termos da aplicabilidade dos procedimentos.
Por exemplo, no futuro, pode-se chegar à conclusão
de que determinada faixa de dinamização
é mais eficaz em determinado tipo de paciente ou
determinado tipo de patologia com um determinado conjunto
de características muito bem definidas.Uma das
coisas que eu tenho falado em minhas apresentações
é que esse consenso, na medida em que lidamos com
coisas subjetivas, tem de ser um consenso da subjetividade.
Não é um consenso no sentido de termos ligações
com fatores físico- químicos ou biológicos.
Nosso saber não é dessa natureza; nossa
semiologia passa pelo subjetivo.
Outro ponto importante sobre a cientificidade diz respeito
ao princípio da semelhança. Quando se define
algo como lei científica, define-se não
só as condições em que ela opera
como também as condições em que não
opera. Então, quando se afirma que uma substância
é capaz de reverter no organismo doente aquele
efeito que ela foi capaz de produzir no são, é
preciso dizer em que condições isso funciona
e que limitações existem para que isso não
funcione. Por exemplo, se considerarmos a lei da gravitação
universal, toda a maçã jogada para o alto
terá de cair, porque se uma maçã
não cair, a lei não é universal.
Se não é lei é outra coisa; é
postulado, princípio, hipótese de trabalho.
Quando, no meu consultório, não consigo
o mesmo resultado que outro colega, algo está errado.
Não que eu tenha de dar o mesmo medicamento, na
mesma potência. Não é isso. Mas eu
tenho de ser capaz de reproduzir aproximadamente os resultados
e ter uma noção de quais fatores podem ter
mudado o resultado. Você sabe isso ? Não.
E ninguém sabe.
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